When Activity Becomes Art

When Activity Becomes Art

Quando Harald Szeeman organizou a exposição “Live in Your Head – When Attitudes Becomes Form: Works – Concepts – Processes – Situations – Information”, uma série de questões estavam a ser amplamente discutidas, sobretudo, depois do aparecimento de várias correntes ainda muito novas na altura. Algumas delas já com alguma força nos Estados Unidos, mas ainda não na Europa.
Neste caso particular encontra-se sobretudo a Conceptual Art, enquanto a Land Art, a Process Art, e a Arte Povera já se haviam desenvolvido em alguns países europeus mas ainda sem afirmação crítica ou museológica importante. Esta é, portanto, uma exposição de charneira. Primeiro, pela introdução das novas formas de fazer; segundo, pelo novo relacionamento introduzido entre curador e artistas e, finalmente, entre ambos os interlocutores e a instituição.
Como hoje bem sabemos, a exposição organizada no ano de 1969, na Kunsthalle de Berna assinalou o corolário de uma ruptura fundamental que veio a afirmar-se continuamente até hoje. A sua importância foi tal que o mesmo Szeeman foi convidado para comissariar a documenta de Kassel de 1972, um ponto de viragem fundamental no entendimento das novas correntes que tinham feito a primeira aproximação ao público europeu em Berna. Essa ruptura é a mesma que potenciou a organização, muitos anos mais tarde, de uma possibilidade durante tanto tempo distante e inexistente: a possibilidade de os artistas terem o seu próprio esquema organizativo de estudos pósgraduados.
A exposição que agora nos ocupa apresenta obras de um grupo de artistas que têm em comum o facto de desenvolverem investigação no âmbito de um programa de doutoramento. Nesse percurso académico, a sílaba tónica é colocada no estúdio, ou seja, em tudo aquilo que permeia a ideia da obra e a obra feita, emancipada do seu autor. Pensa-se, pois, a atividade artística e não a obra de arte ou, mais precisamente, todo o conjunto de atividades que levam a ou se transformam em arte, não se circunscrevendo, contudo, ao universo da Arte Conceptual, mas evocando o conjunto de “Trabalhos – Conceitos – Processos – Situações e Informações” que constituem o útero que nutre qualquer obra.
Refletimos sobre as práticas artísticas contemporâneas enquanto descendentes diretas de “When Attitudes Become Form”, permitindo-nos a ousadia de jogar semanticamente com o título dessa
exposição tão canónica.
Sabemos das questões sensíveis que tal ousadia acarreta, mas estamos conscientes da importância deste olhar retrospectivo e respeitoso que permite a introdução de novos eixos conceptuais, sobretudo, a partir da ideia presente, desde logo, no título, “When Activity Becomes Art”.
As atitudes que provocavam polémica em 1969 transformaram-se hoje em atividades recorrentes de pesquisa e produção de pensamento envolvido em muita da arte produzida hoje e, obviamente, da arte que tem como origem um doutoramento em Artes Plásticas.
Procuramos olhar despreconceituadamente para uma espécie de meta linguagem que a recodifica e situa e, ao fazê-lo, potencia toda a estrutura de um pensamento tornado fazer arte, que hoje se intitula de contemporâneo mas que, talvez, como afirma Peter Osborne, fosse mais correto designar-se como Pós Conceptual. Não se trata, obviamente, de uma mera querela semântica, antes de um assumir de todas as questões importantes que determinaram a passagem de uma atitude a uma atividade, quer dizer, a uma prática e que, por isso mesmo, ultrapassa as condicionantes epocais em que não quer ser envolvida.
A exposição torna-se, assim, na face visível de uma atividade que incorpora no seu fazer todas as aprendizagens, todas as discussões, todas as leituras. Em palavras complexas, toda a possibilidade investigativa que, em forma peculiar, os artistas podem introduzir nas suas obras e que este grupo, dada a especificidade da sua condição de artistas/investigadores (não dupla, mas plena de individuação estrutural) abraça com a força que lhe advém dessa condição.
Que o titulo surja em Inglês, por relacionamento direto com a memória e a história, mas que tal não seja impeditivo para se fazerem todas as aproximações linguisticas possíveis para que tal aparência colonizadora não se transforme num obstáculo.
Pensemos, por isso, a partir do saber dos povos e da resistência que colocaram a tais ímpetos colonizadores: para o povo Quechua, a palavra colonização queria dizer, roubar a memória. Aqui trata-se, exatamente de, em forma de resistência, utilizar uma língua que não é nossa para melhor resistir aos seus objectivos de fechamento. Quer dizer, utilizamos este título exatamente pelas razões opostas a todas aquelas que, normalmente, são nomeadas para que a introdução do inglês esteja presente. E isso é importante pois também advém da pesquisa e da investigação. Por isso, que as atividades (todas as que quisermos elencar para a construção das obras) se tornem arte. É, afinal de algo tão simples de dizer e tão complexo ao mesmo tempo, de pensar, que se trata. Mas a investigação (mesmo a pesquisa peculiar dos artistas) é mesmo assim que funciona. E ainda bem.

Participantes: António Regis, Aurora Campos, David Lopes, Ivan Postiga, Jerónimo Rocha, Liliana Martins, Luis Baltar, Luis Miranda, Maria Ramos, Martín Molín, Oscar Ayala, Oscar Malta, Rui Coelho dos Santos, Tomás Ribas. Curadoria: Vera Lúcia Carmo. Coordenação: Fernando Jose Pereira. Organização: Direção do Doutoramento em Artes Plásticas / FBAUP

Casa Das Artes, 19 de junio al 26 de julio de 2021. Porto, Portugal.